“The Matrix” é o filme mais original que já vi em toda minha vida sem esquecer do “De volta para o Futuro”. Não assisti Matrix no cinema em 1999, assisti em 2000 em casa com a popularização do DVD domestico, era um dos primeiros filmes a ser lançado em DVD, tive que assistir duas vezes para entender completamente. Foi quando me apaixonei pela idéia, o visual, efeitos especiais, fotografia, tudo é muito conciso, filosófico, inovador. O funcionamento da Matrix é o que mais me impressiona, pois tudo que é “marmelada” nos outros filmes de ação no Matrix tem explicação lógica.
Em agosto de 2001 tinha acabado de exibir “Um século de Vitórias” (um documentário sobre a historia centenária do surgimento da igreja de Nossa Senhora das Vitórias) e no final daquele ano só se falava do filme “Todo mundo em pânico” sucesso de bilheteria, eu estava terminando o ensino médio, quando numa conversa com um amigo (Gustavo R. Scaglia), surgiu a idéia de produzir um outro filme.
Achávamos legal a idéia de usar Matrix, como “carro chefe”, como forma de homenagem, e satirizar um pouco de cada filme que curtíamos. Naquele dia falamos muita besteira, citamos muitos filmes, seriados, febre do momento, os filmes clássicos que marcaram época, ri muito das insanidades que queríamos fazer, foi quando decidi começar um roteiro mais “pé no chão” possível, de acordo com os recursos do amadorismo.
Sem experiência alguma nessa área de roteiro imaginem só o que saiu, foi quando comecei a pesquisar sobre formatação de roteiro, em sumo demorou três meses para concluir, foi mais de 14 versões, ate chegar em algo menos pretensioso. Em fevereiro de 2002 tinha um roteiro de aproximadamente 40 minutos. Então foi quando reuni os irmãos Gachet: Evandro (o Viu) e Leandro (o Jason) e explanei toda idéia, disse que ia precisar de muita ajuda, destacando que o personagem Viu tinha que ser feito por Evandro, devido a semelhança com Keanu Reeves, e por incrível que pareça toparam de cara a me ajudar nessa produção insana. Víamos a necessidade de uma preparação cênica, uma vez que ninguém era ator de verdade (Evandro e Leandro na época participavam de um projeto de teatro amador).
Procuramos ajuda primeiramente com Weslei Meneguetti (vereador na época) ele tinha nos ajudado com “Um século de vitórias” então nos introduziu na secretaria da cultura que nos apoiaram na idéia e nos colocaram em contato com a Aldeia Movimento pró-cultura, onde iniciamos os ensaios e oficina cênica com Rogério Barrel, foi com quem aprendi muito a respeito de direção cênica e noções de fotografia.
O elenco ainda não estava completo, foi difícil achar alguém para fazer o papel do Morfeio e Quimera.
Morfeio pela responsabilidade do personagem, e Quimera porque tinha cena de strip-tease, ou seja, quem toparia tirar a roupa para um cineasta amador? Havia ainda outros personagens indefinidos que depois entraria durante as gravações, por isso decidimos gravar tudo aleatoriamente.
Depois de três meses de ensaios e preparação, Evandro e eu compramos uma filmadora semi profissional (na época) e iniciamos as filmagens em junho de 2002, gravamos a cena do “corredor” em quatro meses, sempre a noite, e nos finais de semana quando dava. Antes disso conseguimos uma atriz para o papel da Trinele que participou de todos os ensaios cênicos e chegou de iniciar as gravações conosco, onde gravamos uma cena que foi excluída logo nas filmagens (com Viu e Trinele no corredor), mas devido aos seus compromissos pessoais e profissionais ela saiu do projeto pois não conseguia acompanhar a rotina das filmagens que era só "fora de hora", fiquei um tempo gravando outras cenas que não necessitava desta personagem,
ate que um dia minha mulher e assistente de produção Lilian Maria Rufino citou o nome de Ligia Ribeiro para interpretar a Trinele, achei a idéia ótima devido ao seu estilo visual, marcamos então uma reunião com ela e rapidamente sem muitos
questionamentos se prontificou a participar, apesar de seus compromissos profissionais e estudantis, era bem pontual nos dias marcados para as gravações.
Essa personagem foi criada no intuito de equalizar os conflitos no mundo real, entre Bios, Morfeio e Viu, e mostrar o amor que sentia pelo Viu de uma forma mais sutil que a Trinity do "The Matrix" pois tinha que ficar evidente que Viu era o garanhão da Humortrix, O destaque e o desempenho de Ligia Ribeiro fica evidente em muitos takes, mas o qual me chama mais a atenção foi no ultimo take que gravamos com ela na nave, quando tinha que chorar subitamente depois de descobrir que Viu saia com a Pegorina (Marilene Donato), realmente ela conseguiu derramar lagrimas de verdade,
pra mim isso foi muito bom pelo realismo da cena é claro, me lembro que rimos muito disso no final das gravações daquele dia.
não consegui colocar Trinele na cena do corredor, pois foi humanamente impossível refazer os takes com ela pois o cenário já tinha sido desmanchado, tudo por falta de um planejamento adequado. Essa cena era uma das mais complexas e foi a que fizemos primeiro, tinha a maior parte dos atores de ponta efeitos especiais, pois na seqüência que satirizaríamos Titanic e Day ligth, tinha que estar com aproximadamente 6000 litros de água no cenário foi quando aconteceu uma fatalidade: a estrutura que passamos mais de 15 dias fabricando cedeu e uma enxurrada de água saiu levando a filmadora e tudo que tinha pela frente, mas para nossa sorte a fita que estava dentro não pegou uma gota de água. Diante de tanta inexperiência acho que o resultado foi satisfatório.
Nesse meio tempo, conseguimos Manoel de Andrade para interpretar o Morfeio, e Terezinha Sangy para Quimera, mas ainda faltava o agente Pegoviu, depois de algumas entrevistas conheci Rafael Stein Pizani, e devido a sua disposição e empolgação ficou com o papel.
Continuamos as gravações no “quarto do Viu” (cena excluída) e depois na “casa de Morfeio”, que era um apartamento de um cara que em breve se tornaria um grande amigo (Clodoaldo Araújo) ele dizia: “O ultimo que sair feche a porta... Ah! Tem suco na geladeira!”. Gastamos de três a quatro meses, pois tínhamos que aproveitar e gravar a cena do “Strip-tease” que era cheia de takes e facetas. Usamos o Maximo que podíamos o apartamento, a conversa no barzinho com Viu e Morfeio, também foi feito lá. Tinha uma seqüência em que Quimera feia levava os copos da escolha de Viu (sátira das pílulas) e ilustraríamos sua feiúra quando passasse pelo o aquário o peixe morreria, a flor do vaso murcharia, o gato se assustaria, até o repórter da TV que informava o lançamento do software Metamorfix ia se assustar e a TV ficaria fora do ar, só que na montagem final ficou muito cansativo.
Em seguida partimos para o barracão da igreja santa Vitória, onde tivemos que construir um fundo infinito (branco) para seqüência de introdução e carregamento de armas para Viu e Trinele (Ligia Ribeiro) cena excluída na edição. A seqüência final do fundo branco também foi compactada, exclui muita coisa de piada “forçada” para não me comprometer e principalmente a interpretação dos atores, mas acho que gostei muito mais da versão final do que da original. Tive uns takes que usamos um efeito de “motion” na edição criado por Marco Tomazelli (Animador de computação gráfica e tratamento de som) esse efeito dava a impressão de termos filmado com grua.
Paralelamente fizemos uma tentativa de recriar a cena da mulher de vermelho do Matrix. O problema era que alem de reunir um numero grande de figurantes percebemos que não tínhamos equipamento nem de som nem de vídeo para filmar ao ar livre, por isso desisti da idéia e reescrevi a cena para uma versão interna e que satirizasse Resident evil e Sexta feira 13. Ellen Pommer (Alice) foi excepcionalmente demais, deixou de gravar um comercial de TV com cachê e tudo para passar uma semana nas gravações da casa vazia do Tio Divanil Pizani (tio de Rafael S Pizani) que nos cedeu gentilmente pelo período necessário, Tínhamos uma idéia ambiciosa de congelar a cena no final e movimentar só Viu e Morfeio por Alice e Jason, mas o efeito de “croma-key” não deu certo e na edição também foi excluída essa parte.
Nesse período começamos a construção do cenário do “deposito” onde apareceria Viu e Trinele, quando conectados pela primeira vez , nesse cenário alem de muitas caixas, a particularidade é que teve que ser desenvolvido um suporte de câmera para se fixar no teto, possibilitando o giro ao redor do telefone, cena que satiriza a entrada na Matrix, e esse mesmo lugar quando terminado daria espaço a construção da nave.
Partimos para filmagem da cena de luta, e nos dia que não filmávamos construíamos o cenário da nave. No barracão da luta tivemos que fixar um trilho suspenso para fazer o truque dos cabos de aço, carretilhas e cordas e muita força dos amigos foi fundamental para o desenvolvimento da cena e quando digo força digo no sentido literal da palavra.
O interessante que enquanto filmávamos, Terezinha Sangy recebeu uma proposta de trabalho em São Paulo irrecusável, então tinha que filmar todas as cenas que restavam com ela em menos de dois dias, o que seria impossível, então tive que reescrever novamente o roteiro, mudando o final e o destino da sua personagem, foi quando criei a personagem Pegorina (Marilene Donato) mulher do agente Pegoviu, que se apaixona por Viu... Enfim filmamos o restante das cenas com Quimera em um sábado das 08h00min h da manha até as 05h00min da manha do dia seguinte, foram 21 horas interruptas de filmagem sem perder a empolgação apesar do cansaço. Depois de três meses foram concluídas todas as seqüências de luta e dialogo naquele cenário.
Agora era só partir para cena de desfecho da estória: a “sala do telefone” onde foram feitas todas as seqüências em três semanas. Mas para fechar a maratona de filmagem faltavam e ainda não tínhamos alguém para interpretar Bios (que sigunifica Bicho Iguinorante Operando o Sistema, mas isso não é explicado no filme heheh) uma vez que todos os ensaios desse personagem foi realizado por Leandro Gachet, mas devido a compromissos particulares não foi possível executar as filmagens com ele e então, pensamos no inseparável amigo de infância de Rafael Stein Pizani o famigerado Diego Fernandez,que já nos ajudava muito por trás das câmeras e claro como já estava por dentro de tudo não exitou em participar, e desempenhar com magnitude o personagem, que curiosamente era o que mais atuava sozinho, pois era ele o link entre o mundo real e o virtual,interessante que eu tinha que passar emoções a ele que já tinha sido filmadas e que ele não tinha visto gravar e isso tudo aconteceu, paralelamente com a gravação da sala do telefone, foi terminada a construção da nave e gravado partes separadas dos personagens que não era necessário atuarem ao mesmo tempo, devido aos compromissos particulares dos demais.
Às vezes ia para o set apenas eu e o ator, mas nada como mais quatro meses de trabalho não resolvessem e finalmente chegasse o tão esperado dia: a gravação do ultimo take, do filme: que foi quando Bios (Diego Fernandez) coloca um Cd de instalação para ajudar o Viu contra o software do Pegoviu, as gravações da nave ficaram por ultimo porque Evandro Gachet teve que cortar o cabelo e Manoel de Andrade deixar crescer para que ilustrasse a diferença entre o mundo real e virtual.
E ainda era difícil porque os atores tinham que interpretar sentimentos que não estavam vendo, ou conversar ao telefone ouvindo a minha voz ao invés de ouvir a do personagem. As filmagens terminaram no dia 10 de outubro de 2003, foram quase um ano e meio de produção, e o trabalho estava só começando.
Posteriormente passaríamos por varias dificuldades para finalização, desde lugar para editar, dinheiro, falta de pessoal técnico, problemas técnicos, tempo, pois alguém tem que trabalhar para se sustentar não é.
Nesse meio tempo ingressei no Isca Faculdades no curso de Publicidade e propaganda, onde aprendi muita coisa que veio a me ajudar a deixar tudo mais conciso, dentro de uma linha de identidade, seguindo conceitos de uniformidade para estabelecer uma comunicação clara, sem ruídos, e inteligente sem se tornar maçante.
Após ter perdido dois meses de trabalho de edição devido a um problema no computador que estava trabalhando confesso que fiquei um pouco desanimado. Mas enfim consegui comprar com ajuda da minha mulher e assistente de produção (Lílian Maria Rufino) a minha própria ilha de edição, onde finalmente o trabalho começou a progredir.
O roteiro teve também uma reformulação na hora da edição. Tínhamos 36 horas de matriz de gravação que saiu uma primeira versão de 68 minutos, e após aproximadamente 15 versões de edição, tentando dar dinamismo no enredo, a montagem final originou-se aproximadamente 31 minutos bem desenvolvidos, permanecendo apenas o que era necessário pra contar a estória sem forçar nas piadas, e objetivar a idéia que queria passar: que era homenagear The Matrix.
Jairo Henrique de Lima
10/02/2008
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